Tempo de reforçar <br>a luta pela ruptura

Rui Fernandes (Membro da Comissão Política do PCP)

Para lá dos casos que se têm atravessado, e estão atravessados, na vida política nacional, é necessário ter presente que está prestes a entrar em vigor o Orçamento do Estado para 2015. Um Orçamento que acentua a exploração, alarga as desigualdades, prossegue o ataque no direito de acesso à saúde, à educação e à protecção social, protege e promove a concentração da riqueza e a acumulação de lucros dos grandes grupos económicos e financeiros – opções que prosseguem a destruição de sectores e empresas estratégicas, como é o caso da TAP.

Afirmação da dignidade de quem trabalha e não desiste de lutar

Um Orçamento que é expressão de opções políticas de amarramento do País ao garrote de uma dívida insustentável e de submissão aos ditames da União Europeia e da moeda única, que o enredam cada vez mais numa espiral de crise que a propaganda governamental não consegue apagar. Um Orçamento que cavará ainda mais fundo no plano social, com o aumento dos que empobrecem a trabalhar, com o alastramento da precariedade, com o crescente aumento da pobreza infantil e do desemprego – relativamente ao qual não há criatividade na manipulação estatística que consiga rasurar a realidade e para o qual o mesmo Governo que vende a ilusão da sua descida contribui com despedimentos aos milhares, por exemplo, nos professores e na Segurança Social.

O conjunto de lutas promovidas pelo movimento sindical unitário em torno da CGTP-IN, como as acções de 13 e 25 de Novembro e de dia 4 de Dezembro (para além de muitas outras ao nível sectorial e de empresa), afirmando direitos, repudiando esta política, lutando pela consagração de cadernos reivindicativos, pelo pagamento de salários em atraso, contra despedimentos, em defesa de serviços públicos e pelo direito à fixação do horário das 35 horas, contra as privatizações, tendo constituído importantes acções, representa simultaneamente, tendo presente o contexto em que se desenvolve, momentos particulares de afirmação da dignidade de quem trabalha e não desiste de lutar por um futuro melhor.

Intensificar o esclarecimento

Foi a estes, comunistas e não comunistas, que António Costa brindou com o epíteto de estarem no «conforto do protesto». Uma expressão, que por economia de texto e adjectivos se apelida de ofensiva, de quem se sente, como diz o povo, com o rei na barriga. Bem vistas as coisas, nada de realmente novo no percurso que tem marcado o PS e a sua técnica de acusar os outros daquilo que marca a sua própria prática.

As manobras para o branqueamento das responsabilidades do PS pelo estado a que chegámos, na qual encaixou as primárias – contra as quais se expressou Costa, mas que agora tanto valoriza –, o circo mediático em torno de casos judiciais que estão indissoluvelmente ligados à política de direita e a partir dos quais procuram condicionar o funcionamento da Justiça, a acção ideológica vendendo a ideia de que o discurso genérico de uns é proposta de solução e que as propostas de solução do Partido são discurso genérico, coloca ao colectivo partidário a reforçada exigência de massificar o contacto com os trabalhadores e o povo esclarecendo contra as falsas alternativas e outras ilusões, e projectando as nossas propostas, as nossas soluções para os problemas do País. Inclui-se nessa reforçada exigência o combate aos populismos de diferentes matizes.

No quadro da candonga ideológica em curso, lançam para o éter a ideia de que a direita se consegue entender e a esquerda não. Acontece que o PS teve maioria absoluta e não foi isso que fez o PS realizar uma política de esquerda. Ao contrário, contou, nos quilómetros de estrada que percorreu, com o apoio do PSD e do CDS. Importa, pois, na acção geral do Partido, incorporar os elementos de esclarecimento que ajudem à elevação da consciência política, desde logo levando às massas não só aquelas que são as propostas do Partido, mas procurando que sejam agentes activas na sua defesa e divulgação.

Mais organização, mais intervenção

É tempo de planificar a intervenção para o próximo ano: para o contacto rua-a-rua e porta-a-porta, para a mobilização e o esclarecimento, mas também para o reforço da organização do Partido. É por isso que, com redobrada necessidade, se torna fundamental concretizar a campanha de contacto com a organização do Partido, melhorando as ligações orgânicas, responsabilizando mais camaradas, criando novos organismos, dando particular atenção à criação de estrutura partidária nas empresas e locais de trabalho. Avançar de forma mais decidida no recrutamento e no alargamento da venda da imprensa do Partido. Avançar de forma mais determinada e concretizadora com a campanha de fundos para a compra da Quinta do Cabo.

Este é o tempo de afirmar a luta pela ruptura e pela mudança, interrompendo este rumo de declínio nacional, de recessão, de pobreza e desemprego. Este é o tempo de dar mais força a quem, com verdade e coerência, previu e preveniu para as consequências desta política.




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